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Bullguer pode estar na reta final de sua discreta crise financeira

A rede de hamburguerias paulista Bullguer pode estar no fim de uma crise financeira que atravessou com discrição nos últimos anos. No fim da última semana, a maioria dos credores aprovou uma renegociação que inclui um deságio de 70% da dívida, que já somava R$ 113 milhões. O saldo será pago em 13 a 15 anos, com carência de 14 meses.


"Foi um processo muito discreto, sem reflexo para o consumidor, o que ajudou a companhia a se manter nesse período”, diz Eduardo Scarpellini, sócio da EXM Partners, consultoria financeira que assessora a Bullguer.


Também participam como assessores jurídicos na recuperação judicial os escritórios de advocacia RTS&A e TWK. “Com a homologação do plano, a companhia fica pronta para negociar um novo aporte, que vai permitir investir na ampliação da rede.”


A Bullguer começou a conversar com fundos de private equity e outras empresas de alimentação, mas ainda sem avanço. O gatilho de sua crise foi justamente um estresse societário.


A companhia foi criada pelo trio de amigos Ricardo Santini, Alberto Abbondanza e Thiago Koch em 2015 e contou com capital de investidores pessoa física (os amigos dos amigos) para crescer, como é comum em negócios novatos do ramo. Com o suculento hambúrguer artesanal e casa despretensiosa, a Bullguer logo caiu no gosto do paulistano e cresceu, chegando a mais de 30 unidades entre São Paulo, Rio, BH, Brasília e também Portugal, próprias e franqueadas.


Até que o clube de amigos rachou. Segundo o advogado Arthur Arsuffi, sócio do RST&A, aqueles que financiaram a rede queriam realizar os lucros, vendendo as ações à holding (os credores dizem que foram compelidos a vender). Houve um acordo de preço e prazo, no fim de 2019, mas logo chegou a pandemia – fazendo um estrago geral no setor. Concorrentes maiores, como Madero, sentiram o baque; outras menores, como o Cabana Burguer, tiveram suporte de um sócio institucional capitalizado.


A companhia diz que tentou compensar as vendas aumentando o serviço de delivery, mas as companhias parceiras mordiam 20% do faturamento em taxas. Mas, ainda que a pandemia tenha complicado do lado do faturamento, o principal endividamento da empresa vinha da cisão societária e o caixa da holding para bancar as parcelas secou.


Os então quase ex-sócios entraram com ação de execução contra a empresa e os fundadores, em 2021, pedindo bloqueio de contas e penhora da receita. “Não foi a questão societária que causou o processo de RJ mas foi determinante para a estrutura de endividamento que levou a esse pedido”, diz Arsuffi. “Em 2019, foi uma negociação amigável, mas o desgaste por questões econômicas e jurídicas acabou se refletindo no relacionamento das partes. A relação pessoal se descontruiu e as conversas seguiram por meio de advogados.”


Os sócios iniciaram um processo de mediação no Mediation and Arbitration for Recovery and Business mas, sem sucesso após algumas sessões, pediram recuperação judicial ao TJ-SP em dezembro do ano passado. O processo de discussão com credores para aprovar um plano judicial, portanto, já se arrastava há um ano.


“Os credores tiveram a flexibilidade de aceitar uma repactuação da dívida durante a pandemia, alterando o prazo, mas em determinado momento pararam de receber e isso originou uma série de ações judiciais”, diz Marcelo Rodrigues, do escritório Manassero Advogados, que representa alguns dos ex-sócios no processo de recuperação judicial. “Ficou uma sensação de falta de transparência e abuso do instrumento de RJ. Os credores saem sem a participação acionária e com um valor muito menor do que negociaram.”


Os antigos sócios investidores eram em maioria empreendedores também, em diversas áreas, como vidraçaria, decoração, corretagem de seguros, engenharia ou também alimentação. Entre os credores estão ainda o escritório de advocacia BMA, o banco Itaú e os condomínios dos shoppings Iguatemi Campinas e Eldorado.


Segundo Rodrigues, houve solicitação de mais documentos gerenciais da companhia, que não teriam sido apresentados no âmbito da RJ. O acordo de reestruturação, no entanto, foi aprovado na quinta-feira por maioria em todas as classes de credores.


“Alguns credores minoritários votaram contra, mas a aprovação foi maciça em todas as classes”, diz Scarpellini, que segue assessorando a companhia na busca de potenciais investidores. Com a aprovação pelos credores, o plano de recuperação judicial segue para homologação da juíza da RJ. “É um passo importante, mas não o fim do processo”, ressalta Arsuffi.


A Bullguer fechou quatro unidades deficitárias, mas mantém 22 unidades próprias e 10 franquias operando, sendo duas abertas recentemente. A rede passou a fazer mais parcerias como eventos, como festivais de música fechados e festas de rua, e começou a apostar no modelo de lojas contêiner, mais econômicas e deslocáveis.


Cortou a verba de marketing, mas conseguiu aplicar tecnologia e ajustar logística para reduzir a necessidade de funcionários por loja. A receita anual da companhia, segundo a EXM, está na casa de R$ 100 milhões – metade do que já foi. A renegociação da dívida deixa a operação, ainda que apertada, de pé.


“Grande parte dos fornecedores cresceu junto com a gente e somos gratos a eles por nos dar esse voto de confiança, para focarmos no que sabemos fazer de melhor e com o problema jurídico resolvido”, diz Abbondanza, um dos fundadores da Bullguer.


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