A Neogrid pode ser a nova Locaweb da Bolsa?

Última empresa a abrir capital na B3 em 2020, a empresa catarinense de software guarda paralelos com a Locaweb, que viu suas ações terem alta de 366% após um IPO bem-sucedido no ano passado. Mas repetirá o feito? O CEO, Eduardo Ragasol, detalha o plano



Na contramão de outros países, a lista de empresas de tecnologia de capital aberto no Brasil ainda é incipiente. Em 2020, porém, o setor marcou presença com o maior destaque entre as 27 estreantes na B3: a Locaweb, cujas ações acumularam uma alta de 366% desde a sua abertura de capital, em fevereiro.

Essa trajetória pode servir de inspiração para outro nome dessa indústria que também testou o apetite dos investidores em 2020. A Neogrid, companhia de software, foi a última empresa a tocar a campainha da bolsa brasileira no ano passado, em 16 de dezembro.

Assim como a Locaweb, a empresa tem estrada no setor. A Neogrid foi criada em 1999, em Joinville (SC), por Miguel Abuhab, que já tinha no currículo a fundação da Datasul, companhia de software comprada em 2008 pela Totvs, outra representante de tecnologia na B3.

Avaliada em R$ 1,07 bilhão, a Neogrid captou R$ 486,5 milhões em seu IPO, cujo preço fixado da ação, de R$ 4,50, ficou abaixo da faixa indicativa inicial, de R$ 5,50 a R$ 7,25. Em poucos dias de negociações, no entanto, o papel encerrou 2020 com alta de 58,8% e o valor da empresa chegou a R$ 1,71 bilhão.

“O mercado é carente de opções e nós temos um modelo com poucos paralelos”, diz Eduardo Ragasol, CEO da Neogrid, ao NeoFeed. “Daqui para frente, é dar resultado. E o capital que nos confiaram é perfeitamente compatível com nossos objetivos.”

É justamente em seu modelo que a Neogrid enxerga o diferencial para ficar sob os holofotes do mercado. A empresa é dona de uma plataforma, ofertada no formato de software como serviço, que conecta os sistemas de gestão (ERP) de indústrias, fornecedores, distribuidores e varejistas.

A ferramenta dá visibilidade dos estoques e das vendas, o que permite ajustar a produção, a distribuição e a reposição nas prateleiras, de acordo com o ritmo de consumo. Essa rede reúne um tráfego mensal de mais de 1 petabyte de dados e inclui cerca de 7 mil clientes, no Brasil e no exterior.

Aprimorar as aplicações a partir dessa avalanche de dados é o norte da companhia em todas as suas trilhas pós-IPO. A principal delas envolve o crescimento inorgânico, estratégia que será o destino de 80% dos recursos captados.

A rede da Neogrid reúne um tráfego mensal de mais de 1 petabyte de dados e inclui cerca de 7 mil clientes, no Brasil e no exterior

Com um histórico de 14 aquisições desde a sua fundação, a Neogrid já tem um funil de empresas mapeado e está retomando as conversas que foram suspensas durante o seu IPO. No momento, a companhia tem duas negociações avançadas.

“Vamos buscar empresas com capacidades ímpares de gerar insights a partir de dados”, explica Ragasol. Ele ressalta que há muitos ativos com esse perfil no País, mas que boa parte deles não tem acesso a muitos dados. “Conectado ao nosso ecossistema, o potencial dessas empresas pode triplicar.”

Outro fator de peso na decisão por um ativo é a especialização em segmentos como bens de consumo, agronegócios, eletroeletrônicos, moda, materiais de construção, farmacêutico e e-commerce. Além de aquisições, a empresa não descarta os acordos para a criação de joint ventures.

As aquisições também marcam a jornada da Locaweb depois de sua estreia na bolsa. A empresa reservou R$ 575 milhões captados no IPO para essa finalidade e já fechou cinco acordos desde então. Nesse intervalo, a companhia saiu de uma avaliação de R$ 2,6 bilhões para os atuais R$ 10,1 bilhões.

Novas avenidas

Com seu modelo e uma operação de 750 funcionários, a Neogrid reportou uma receita de R$ 154,5 milhões de janeiro a setembro de 2020 e um lucro líquido de R$ 8,57 milhões. Em 2019, a empresa faturou R$ 207 milhões.

Nesse cenário, a expansão do portfólio envolve ainda acordos comerciais. “Queremos combinar nossa malha com a inteligência e o conhecimento de parceiros para criar novas avenidas de receita”, diz Ragasol.

Uma das vias é a oferta de seguros. “Nós temos o valor diário do estoque em cada ponto da cadeia. Seja em loja, no centro de distribuição ou mesmo em trânsito”, afirma. “Podemos desenvolver um seguro dinâmico, com base nessas variáveis.”

A abordagem se aplica a outros produtos financeiros, como empréstimos. A empresa já conversa com parceiros dessa indústria para costurar como esses produtos serão empacotados e levados ao mercado

Avaliada em R$ 1,07 bilhão, a Neogrid captou R$ 486,5 milhões em seu IPO, cujo preço fixado da ação, de R$ 4,50, ficou abaixo da faixa indicativa inicial, de R$ 5,50 a R$ 7,25. Em poucos dias de negociações, no entanto, o papel encerrou 2020 com alta de 58,8% e o valor da empresa chegou a R$ 1,71 bilhão.

“O mercado é carente de opções e nós temos um modelo com poucos paralelos”, diz Eduardo Ragasol, CEO da Neogrid, ao NeoFeed. “Daqui para frente, é dar resultado. E o capital que nos confiaram é perfeitamente compatível com nossos objetivos.”


A companhia também está olhando para dentro de casa. Internamente, um dos focos é a estruturação da unidade de inovação e analytics, criada há dois meses. Com cinco projetos em andamento, a divisão vai desenvolver produtos que vão integrar a prateleira da empresa.

Para isso, a nova área vai combinar os dados que trafegam na rede da empresa com aplicações como inteligência artificial e machine learning. A ideia é construir modelos e treinar os algoritmos para transformar essas informações em insights para os clientes.

“Com a Covid-19, os dados deixaram de ser o novo petróleo para ser como água: vitais para qualquer empresa”, diz Fabio Martinelli, analista da consultoria IDC. “E há uma tendência de que sejam trabalhados em colaboração pelas cadeias, para extrair informações de maior valor.”

A Eleven Research ressalta as boas perspectivas da Neogrid nesse contexto. “Vemos o vasto data lake construído pela Neogrid nos últimos anos como uma importante oportunidade de monetização ainda a ser explorada”, escrevem os analistas Eric Huang e Carlos Eduardo Daltozo.

Em relatório, eles pontuam que a empresa está à frente de gigantes como a alemã SAP e a americana Oracle, que oferecem sistemas de gestão da cadeia de abastecimento, mas não têm todos esses elos integrados.

Os analistas destacam ainda o fato de a plataforma da Neogrid ser agnóstica e permitir a rápida integração de diferentes ERPs, e questões como o modelo de software como serviço, que permite ganhos de escala sem grandes investimentos.

Há outras iniciativas em curso na empresa. Uma das novidades, prevista para ser lançada neste trimestre, é uma loja virtual. O plano é oferecer uma opção “self service” para que os clientes possam adquirir outros produtos do portfólio e ativar mais conexões na rede da companhia.

Hoje, no exterior, a Neogrid atende 300 clientes, em 140 países

A última escala é internacional. Presente na Holanda e nos Estados Unidos, a Neogrid atende 300 clientes em 140 países no exterior. Nessa fronteira, a prioridade será ampliar a presença nessa base e captar novos clientes em mercados como Reino Unido, França, Alemanha, Portugal, Espanha, México, Colômbia e Chile.


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