Por que veremos mais M&As entre corporações e startups?



Há algumas semanas foi anunciada a conclusão de um aporte do J.P.Morgan na fintech brasileira FitBank. O valor da transação não foi divulgado, mas sabe-se que a centenária instituição financeira terá assento no Conselho de Administração da startup e que um dos objetivos será expandir o alcance do FitBank para novos mercados desenvolvendo soluções digitais de pagamentos para clientes internacionais. A aquisição da fatia de uma fintech é a primeira feita por um dos maiores bancos do mundo na América Latina e é um marco importante de uma tendência que deve ganhar maior força com o aumento da demanda por digitalização dos negócios no pós-Covid: a fusão ou aquisição de startups com DNA tecnológico por empresas que precisam trazer inovação rapidamente para suas estratégias de negócio. O cenário atual me faz lembrar do livro de Thomas Friedman, “O Mundo É Plano”. A obra, lançada em 2005, faz uma análise da globalização no século 21 e usa o adjetivo plano no sentido de que as diferenças entre países se tornaram progressivamente irrelevantes no contexto da competitividade. Um exemplo icônico deste movimento para nós brasileiros foi a compra pela Ambev da cervejaria Budweiser. Pois o que está ocorrendo com o mercado de M&A (mergers & acquisitions) hoje é parecido. Não importa se startup compra startup, empresa grande compra startup, duas empresas se juntam, se uma estrangeira compra uma nacional ou vice-versa. Os paradigmas estão sendo quebrados. A questão é muito mais a capacidade de geração de valor, que nunca foi tão importante, desenvolvimento de soluções e potencial de escalabilidade. Com os negócios cada vez mais digitais, as organizações se tornam cada vez mais globais, podem contratar talentos e acessar inovação em qualquer lugar do mundo e buscar oportunidades de fusões ou aquisições onde quer que esteja uma startup com um modelo disruptivo capaz de rapidamente trazer uma veste digital para o negócio. Uma boa startup com um time de primeira e um killer product para encampar pode agora, derrubadas as fronteiras, estar nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia ou, boa!, no Brasil. Levantamento global do Mergermarket mostra que os M&As no setor de tecnologia seguiram resilientes mesmo com a crise do COVID. No primeiro trimestre de 2020 os negócios envolvendo empresas do setor caíram 15% em volume e 2% em valor investido, enquanto a média geral, considerando todos os demais setores, foi de 35% (volume) e 39% (valor investido). No primeiro trimestre os maiores negócios de fusões foram realizadas com fintechs. O maior deles, de US$ 10,1 bilhões e ainda aguardando aprovação regulatória, foi entre duas empresas de pagamentos francesas, a Worldline e a Ingenico. Outras grandes aquisições no setor foram a compra da Credit Karma pela Intuit, por US$ 7,1 bilhões; e da Plaid pela Visa por US$ 5,3 bilhões. E no segundo trimestre, quando a pandemia já estava avançando, gigantes como Facebook e Apple anunciaram investimentos. Em abril, o Facebook adquiriu 9,9% das ações da indiana Jio por US$ 5,7 bilhões e em maio comprou a Giphy por US$ 400 milhões. Já a Apple investiu US$ 100 milhões na NextVR. Assim que a curva da pandemia escalou, os analistas da Deloitte detectaram maior cautela nos processos de M&A. Os acordos previamente negociados, ou que se encontravam em estágio avançado, progrediram lentamente; enquanto aqueles que se encontravam na etapa pré-due dilligence não foram cancelados, apenas adiados. A consultoria previu ainda aumento no volume de deals na segunda metade do ano, o que vem se confirmando aqui no Brasil. Por que deveremos ver um número maior de casamentos entre grandes empresas e startups nos próximos meses? Basicamente porque tornar os gastos mais racionais e dar impulso ao faturamento são imperativos tornados mais urgentes pela pandemia. No contexto da low touch economy (com a probabilidade de ondas recorrentes de distanciamento social obrigatório), soluções tecnológicas se tornam estratégicas, seja para economizar dinheiro ou aumentar o portfólio. E também porque, sim, em alguns casos, está “barato”. Alguns negócios infelizmente estão menos valorizados (ou talvez com valores mais realistas?!) potencializando que transações ocorram agora. No Brasil o setor de fintechs está em uma ebulição ainda maior da que já vinha antes do Covid. Depois do anúncio do J.P. Morgan comprando uma participação no FitBank, o Banco do Brasil anunciou há poucos dias uma linha de R$ 200 milhões para investir na aquisição de posições minoritárias em startups que tenham sinergia com seus negócios, especialmente em seguros e no agronegócio, onde a instituição desempenha um papel relevante. Poucos segmentos da economia tiveram uma mudança de perspectiva tão grande com o isolamento social quanto o de e-commerce, com um multidão de operações que tiveram praticamente do dia para noite de se tornar virtuais. O Magazine Luiza (MGLU3), um dos principais players do varejo digital, tem demonstrado apetite para avançar com sua intensificação digital e também entrou na onda das aquisições. No final de julho, a empresa de Luiza Trajano anunciou a aquisição da Hubsales, startup de digitalização de polos fabris. Com sede em Franca, no interior de São Paulo, a empresa é especializada em clusters – polos de produção especializados – que permitem que as fábricas vendam direto ao consumidor final por meio de plataformas digitais. Menos de uma semana depois, a companhia trouxe para dentro do seu guarda-chuva o site CanalTech e a Inloco Mídia, plataforma de mídia online desenvolvida pela startup Inloco. Essas compras marcam a entrada do grupo no mercado de publicidade digital e fazem parte de um movimento para aumentar a audiência e eficácia da ferramenta de anúncios online da varejista, o Magalu Ads. As aquisições reforçam o pilar estratégico batizado de “Magalu ao Seu Serviço”, um conjunto de soluções colocadas à disposição dos parceiros com o objetivo de aumentar a digitalização do varejo. O segmento de healthtechs foi outro anabolizado pela pandemia e também deve puxar contratos de M&A. É o caso da ProntMed, que criou um prontuário eletrônico atualmente utilizado por cerca de 7 mil médicos em todo o Brasil. Ela já registrou mais de 10 milhões de atendimentos, acumulando uma base de dados com 2 milhões de pacientes. Agora, está recebendo uma Série B de investimento, liderada pelos laboratórios Fleury (FLRY3) e Sabin, que compraram participação de 18% e 12%, respectivamente. Com os recursos será desenvolvido um módulo chamado “clinical decision support”. Podemos esperar M&As em muitos outros setores, especialmente nos que mais já vinham investindo em transformação digital antes da crise do coronavírus. Como pontuei em meu último artigo, além de fintech, healthtech e e-commerce, o Corporate Venture está sedento por inovação em áreas como agtech, edutech, foodtech, adtech e construtech. De acordo com a pesquisa Global Capital Confidence Barometer, enquanto o mundo aprende a lidar com a pandemia de COVID-19, o caminho para os executivos globais é planejar o próximo desafio e pensar além. Nesse mundo agora sem fronteiras, as operações de M&A, quando boas para ambos os lados, claro, servirão para impulsionar a economia e os negócios em um mundo novo no qual a única certeza que temos é de que seremos cada vez mais digitais e as empresas precisarão atuar cada vez mais como e com as startups.

Por Orlando Cintra

moneytimes.com.br


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