Fundo que promete investir bilhões na MMX, de Eike, tem capital de US$ 128

Suspeitas envolvendo acordo de mineradora do empresário com grupo chinês levam associação de investidores a protocolar novos inquéritos na CVM


Impossibilitado de assumir cargos executivos, o empresário Eike Furkhen Batista da Silva, que já figurou em listas dos homens mais ricos do mundo, tem atuado para evitar aquilo que seria mais um tombo em sua história recente. Com o objetivo de conter a falência da mineradora MMX, uma das poucas companhias do grupo EBX que restaram em suas mãos, o ex-bilionário se uniu ao fundo de private equity China Development Integration Limited (CDIL), que prometeu aportar até 200 milhões de dólares (mais de 1,1 bilhão de reais) no país. Boa parte deste montante seria para transformar a MMX, que sobrevive com três funcionários e tem apenas uma fonte de receita atualmente, no colosso que sempre desejara se tornar. Em fato relevante divulgado em 25 de março, a mineradora disse que havia chegado em um acordo para receber 50 milhões de dólares da companhia sediada em Hong Kong. Tudo indica que essa ‘verba infinita’, no entanto, possa não existir. A Associação Brasileira de Investidores, a Abradin, constatou, por meio de uma pesquisa no registro de empresas de Hong Kong, que o capital do fundo “multibilionário” CDIL é de apenas 128,6 dólares. Além disso, o único diretor da empresa, Andy Lai, presidente do conselho da CDIL, é ligado a um escândalo envolvendo uma corporação criada para evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Ele ainda é diretor de aproximadamente 20 empresas, todas sediadas no mesmo endereço. A revelação pode colocar em xeque os planos do CDIL de fazer barulho no mercado brasileiro. Além de prometer um cheque em branco para desenvolver os projetos da mineradora de Eike, o fundo asiático acenou com a possibilidade de compra do Porto do Açu (outra obra do ex-bilionário) e participação ativa nos leilões promovidos pelo Ministério da Infraestrutura, com investimentos em aeroportos, ferrovias e portos, além de oportunidades em geração de energia eólica e solar. Esse portfólio de ativos dos sonhos foi definido pelo fundo de investimentos Rubicon, parceiro dos chineses no Brasil. “Fomos à Brasília conversar com o ministro (da Infraestrutura) Tarcísio Freitas para entrarmos no Aeroporto de Viracopos”, diz Pedro Guimarães, CEO da Rubicon. “Visitamos o Porto do Açu. Há um interesse enorme para desenvolver um projeto de energia lindo lá”, complementa. Um funcionário do governo confirmou a conversa com integrantes da pasta, mas minimizou a expectativa do fundo chinês. “Falaram ‘por alto’ em investir no país. Mas é furada. Sabemos distinguir o que é concreto do que não é”, disse. Desde que a Rubicon anunciou, em novembro, que receberia 200 milhões de dólares para iniciar a expansão dos chineses em solo brasileiro, nada de concreto aconteceu. O patrimônio declarado por parte do fundo brasileiro se manteve na faixa dos 11 milhões de reais, algo distante do aporte anunciado, e não houve qualquer investimento anunciado no país fora o da MMX. Segundo Aurelio Valporto, presidente da Abradin, há evidências fortes de fraude – não só no mercado financeiro, como no judiciário. “Estamos diante de fortes indícios de manipulação de mercado e até mesmo processual”, diz. “Esse fundo chinês não é sério e o que está sendo feito é, acima de tudo, uma tentativa de humilhar o judiciário brasileiro, com uma fraude processual”, ataca. Futuro da MMX Os planos para a MMX, segundo revela Guimarães, da Rubicon, são livrar a mineradora da falência e, posteriormente, entrar com um novo pedido de recuperação judicial. Para ele, a MMX pode virar uma “Shell” no mercado de minério de ferro do país. “A gente está negociando há seis meses, conversando com credores e com os administradores judiciais, verificando uma forma de trazer a companhia de volta”, diz o executivo.


“Vamos fazer da MMX uma ‘Shell’ de minério e, eventualmente, mudar o seu nome porque há por trás toda uma carga envolvendo o Eike”. Questionado se os chineses seriam contrários à participação do ex-bilionário no projeto futuro, ele diz que não é bem assim: “O Eike sairia da MMX, mas o statement do fundo chinês tem interesse em ver coisas com ele. Não há preconceito algum”. Há incongruências no fato relevante usado pela MMX para celebrar o acordo com o fundo chinês. Enquanto a petição fala em aporte de capital de, no mínimo, 50 milhões de dólares, o term sheet, uma espécie de carta de intenções firmada entre as empresas envolvidas no negócio, propõe que o fundo invista até 50 milhões de dólares. Pode parecer um detalhe, mas é uma mudança que faz toda a diferença. Questionado sobre a suspeição de fraude e se foi feito uma due dilligence (uma análise aprofundada) da operação, o CEO e diretor de relações com investidores da MMX, Joaquim Martino, foi evasivo. “Até agora, toda a interlocução que foi feita com as pessoas nos leva a crer que não haja fraude envolvida no processo. Se tivesse fraude, isso teria sido identificado pelas várias empresas que assessoram a operação”, diz ele, sem detalhar quais foram as empresas responsáveis por realizar a auditoria no processo. A Rubicon afirma que, com o montante a ser aportado, será possível reestruturar a companhia, tirando o projeto da mina de Bom Sucesso (MG) do papel, e arcar com todas as suas dívidas, algo que destoa da realidade: a MMX tem dívidas acima da casa de 1 bilhão de reais. A Vetorial Mineração, responsável pela única receita da empresa de Eike atualmente (ao fazer o pagamento anual de 500.000 dólares à MMX pelo arrendamento de um complexo de minas no Mato Grosso do Sul), também enxerga o movimento como uma tentativa de protelar a falência da empresa na Justiça. “A nossa leitura é de que todo esse jogo de cena foi criado às pressas para reembaralhar as cartas do processo judicial. Assim, eles ganham tempo e tentam escapar da falência. Só vejo esse tipo de cenário”, diz Gustavo Correa, sócio e conselheiro da Vetorial. Apesar de criado nos 1980 e de afirmar em seu site que investiu mais de 100 bilhões de dólares em projetos diversificados de infraestrutura mundo afora, nenhum dos analistas de mercado consultados por VEJA reconheceram a procedência do fundo CDIL.


Em seu portal, o fundo chinês lista uma dezena de funcionários que não apresentam ligação formal com a companhia. Fora isso, uma das empresas citadas como seu “braço interno”, a Touchstone Capital, uma microempresa com menos de 10 funcionários e em estado “dormente”, negou à Abradin que tenha conhecimento sobre o CDIL. Diante dos fatos, a Abradin abriu nos últimos dias dois processos na Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, a fim de analisar as suspeitas envolvendo essa transação e a possível tentativa de fraude no mercado financeiro. Desde 23 de março, quando começaram as especulações envolvendo a parceria da empresa de Eike Batista com os chineses, os papéis da mineradora na bolsa se valorizaram mais de 60%, saindo de 17,58 reais para mais de 28 reais, com pico próximo a 40 reais no período. Publicado em: veja.abril.com.br

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