Compra do Grupo Soma é ganha-ganha, mas é ainda melhor para Hering, diz analista

As companhias assumiram compromisso de exclusividade, cujo descumprimento prevê pagamento de multa de R$ 250 milhões


A disputa pela Hering parece ter chegado ao fim: nesta segunda-feira (26), a companhia e o Grupo Soma (dono de grifes como Animale e Farm) anunciaram que fecharam um acordo que prevê a compra da Hering pelo Soma. O acordo avalia a Hering em R$ 5,2 bilhões.


Segundo as empresas, os acionistas da Hering receberão uma ação ordinária e uma preferencial da nova companhia por cada ação que detêm atualmente. O Grupo soma pagará R$ 9,63 à vista e 1,62 ação ordinária para cada ação da empresa adquirida.


No acordo, tanto a Hering quanto o Soma assumiram compromisso de exclusividade, cujo descumprimento prevê pagamento de multa de R$ 250 milhões — o que pode impossibilitar a Arezzo de fazer uma futura oferta pela companhia. A transação está sujeita a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).


"A Hering e o Grupo SOMA avaliam que a Operação será transformacional no que tange a consolidação de uma plataforma de marcas no varejo de moda, ampliando o seu mercado endereçável total, conectando diferentes audiências e abrindo um novo espaço e avenida de crescimento dado o portfólio altamente complementar", disseram as empresas em um comunicado.


Após o anúncio do acordo, às 11h16, as ações da Hering subiam quase 30%, a R$ 28,77, enquanto as do Grupo Soma operavam em queda de 8,37%, sendo negociadas a R$ 12,92.


No início deste mês, a Hering recusou uma oferta de R$ 3,2 bilhões da Arezzo para a aquisição da companhia. Do valor total, R$ 26,75 milhões seriam voltados para as ações da empresa.


Procuradas, as empresas ainda não responderam ao pedido de entrevista do CNN Brasil Business.


É bom negócio?

O negócio parece ser bom para os dois lados. Mas os acionistas da Hering saem muito mais felizes com o negócio, enquanto os do Grupo Soma ainda estão desconfiados com o negócio.


O desempenho da Hering já não empolga há muito tempo. É uma empresa com resultados ruins em um setor que também não vai muito bem das pernas desde o início da pandemia. No segundo semestre, período em que o varejo ensaiou uma retomada em ‘V’, as vendas da varejista de moda caíram 10,4% no terceiro tri e 9,9% nos últimos três meses.


Há duas semanas, a Arezzo tentou comprar a Hering oferecendo R$ 3,3 bilhões, algo em torno de R$ 22 por ação. O acordo Soma-Hering prevê pagamento de R$ 33 por ação - um prêmio de 93% sobre o preço da Hering no dia 14 de abril. No último fechamento (em 23/04), as ações da Hering valiam R$ 22,68.


Se os acionistas da Hering já ficaram animados com a proposta da Arezzo, hoje estão ainda mais contentes com o anúncio de incorporação pelo Grupo Soma. “É uma notícia positiva para a Hering, porque conseguiu um valuation que não conseguiria alcançar tão cedo”, afirma Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.


Depois da incorporação ao Grupo Soma, os acionistas da Hering esperam um ganho de eficiência da empresa, principalmente no digital, já que a empresa demorou para entrar no e-commerce e não tem uma estratégia multicanal tão bem sucedida. Agora, a expectativa é que a marca forte da Hering ganhe relevância online após começar a ser operada por uma empresa que já consegue um bom desempenho na internet.


Para o Grupo Soma, o principal benefício está no aumento enorme da base de clientes. Em teleconferência com analistas, Roberto Jatahy, CEO do Grupo Soma, disse que a combinação de negócios aumenta o potencial de mercado do grupo de R$ 30 bilhões para R$ 110 bilhões.


O negócio é visto como um ganha-ganha: a Hering consegue uma boa avaliação e ganha fôlego para se reestruturar e o Grupo Soma ganha penetração na classe média que não tem com suas marcas premium Farm e Animale.


Mas os investidores do Grupo Soma estão desconfiados. Não à toa, as ações da empresa despencavam no pregão desta segunda-feira. Os acionistas estão preocupados com descapitalização da empresa, que vai desembolsar um valor alto bem acima do oferecido pela Arrezzo para ter o controle da Hering.


“É claro que os investidores queriam que o Grupo Soma comprasse barato, mas a empresa fez contas e sabe o que a Hering vale. Eles identificaram a oportunidade e viram que este é o preço correto”, avalia Douglas Carvalho, sócio da Target Advisor, especializada em M&A.


Além disto, os acionistas estão preocupados com a exposição a um segmento que não fazia parte do portfólio do Grupo Soma até então. Até hoje, quem investia no grupo não tinha na carteira uma empresa que conversava com a classe C, o que pode não agradar alguns.


Sobre uma possível mudança de posicionamento de marca da Hering sob nova direção, os analistas ouvidos pelo CNN Business acreditam que isto não vai acontecer, pelo menos imediatamente. “O Grupo Soma vai se concentrar na integração de canais e pode acrescentar valor aos produtos Hering, mas não acho que faça sentido elevar os preços num primeiro momento”, afirma Henrique Esteter.


Publicado em: www.cnnbrasil.com.br

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