Bitcoin derrete 23% e outras bolhas especulativas ameaçam murchar pelo mundo

Saldo do Dia: Aversão ao mais famoso dos criptoativos contaminou a renda variável do mundo desde cedo. Preços de commodities que vem sendo inflados balançaram, derrubando bolsas. Busca por proteção na moeda americana, também refletida no ouro, foi intensificada após leitura da ata do Fed. Sobre juros, seguem as juras de que seguirão zerados a perder de vista. Mas as injeções bilionárias de dinheiro no mercados, que têm turbinado os ralis de ativos desde o começo da pandemia, podem estar já com os dias contado

O mercado mundial operou como que ao som de Ivan Lins nesta quarta-feira (19). "Cai o rei de Espadas, cai o rei de Ouros, cai o rei de Paus, cai, não fica nada." Ou melhor, cai o bitcoin, cai o minério de ferro, cai o petróleo... Cai, não fica nada de pé entre os ativos mais especulativos do universo das finanças.


As principais bolsas do mundo não escaparam de ouvir em modo de repetição a canção ecoada também por Elis Regina desde a década de 1970. Foram igualmente infladas pela surra de liquidez dada no planeta desde o começo da pandemia pelos bancos centrais, liderados pelo americano (Federal Reserve, o Fed).

  • A bolsa do Brasil não ficou de fora, calando fundo o primeiro verso de "Cartomante" nos corações dos investidores: "Nos dias de hoje é bom que se proteja". O movimento de aversão a riscos, em linha com a toada global, foi intensificado após a divulgação da ata da última reunião do política monetária do Fed.

Faltando duas horas para a sessão acabar em Nova York e no Brasil, foi repetida parte da cantilena costumeira. Que a inflação não preocupa, que os empregos sim, que os juros por isso seguirão zerados até não sei quando, patati e patatá. Mas investidores prestaram mais atenção em outros dois trechos do documento, especificamente.

  1. Alguns membros do colegiado acreditam que, se os juros devem seguir no chão, talvez já seja hora de começar a diminuir as recompras bilionárias de títulos ao mês praticadas pelo Fed desde março do ano passado;

  2. Outros dirigentes admitiram preocupação com o nível de riscos fartamente assumido pelos participantes do mercado ao longo da crise.

E Ibovespa caiu 0,28%, aos 122.636 pontos. Acumula em dois pregões da semana ganhos de 0,62%. Das 84 ações em carteira, 45 delas caíam no fim do dia. Entre compras e vendas, foram movimentados ao todo R$ 23,7 bilhões. O giro financeiro ficou 6% abaixo da média diária em 2021, de R$ 25,2 bilhões. O dólar à vista fechou em alta de 1,13%, aos R$ 5,3129. Na semana, o real acumula desvalorização de 0,80%.

A curva de juros futuros brasileira acompanhou os rendimentos dos títulos americanos de 10 anos em alta, fechando na altura dos 1,7% ao ano. E demonstrando pouca confiança de investidores de que o Fed terá pernas para suportar a inflação galopando até onde promete.

  • Taxas de contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) fecharam o dia também praticamente de lado. Para janeiro de 2023, oscilavam no fim do dia de 6,82% a 6,86%. São mais ligadas ao rumo esperado para a Selic;

  • Já o fim da curva de juros futuros reflete à intensidade do cheiro de calote do governo no ar e, consequentemente, à expectativa de juros condizentes com esse risco lá na frente. E as taxas para janeiro de 2031 avançaram de 9,39% a 9,48% em cinco pregões.


  • O pontapé inicial para a murchada parcial dada no que alguns no mercado não hesitam em classificar como "bolha financeira", em maior ou menor medida a depender do ativo, começou antes mesmo de o Fed divulgar sua ata. Foi dado derretimento do bitcoin.


Com o dólar em xeque como reserva de valor, sob o fantasma da inflação rondando os Estados Unidos, a mais famosa das criptomoedas têm sido master-ultra-mega-maxi-hiper-super-valorizada desde março do ano passado. De lá para cá, desde quando além de zerar seus juros o Fed passou a fazer as tais injeções monetárias que agora ameaçam dar "adeus", subiu na menos do que quase 600% até abril. Da altura de US$ 9 mil por moeda virtual ao recorde de US$ 62 mil, em abril.

Daí em diante, passou a derreter. Desta vez, do topo da véspera, aos US$ 45,5 mil, chegou a afundar 23% ao piso desta quarta, aos R$ 34,9 mil. Por volta das 17h10, recuperava parte do valor, indo aos US$ 39,8 mil por bitcoin.

Morram de amores ou não os mais tradicionais pelo bitcoin, o criptoativo virou um termômetro relevante para as alternativas clássicas de renda variável. Em entrevista à CNBC, o diretor de investimentos do Bleakley Advisory Group, Peter Boockvar, resumiu bem o status adquirido por esse mercado. “Não há dúvida de que o bitcoin tem sido o garoto-propaganda da especulação desenfreada do mercado e do apetite pelo risco”, disse. “Assim, ele deve ser absolutamente monitorado para medir o pulso de tomada de risco e agora a aversão ao risco.


Conforme detalhado no Valor Investe pelo repórter Rafael Gregorio, não só uma agulha pode ter atingido a aparente bolha dos bitcoins. Entre as que parecem ser mais poderosas, está o recuo dado pela gigante de tecnologia americana Tesla. Assim como ajudou a turbinar cotações neste rali recente, passando a aceitar a moeda virtual para vender seus carros elétricos, deu para trás nos últimos dias.


  • E, como sempre acontece quando o calo dos investidores mais ousados mais aperta, a mais tradicional das reservas de valor do mundo apontou para cima. Contratos para entrega futura de ouro mais negociados em Nova York fecharam em alta de 0,72%, aos R$ 1.881 por onça-troy (31,3035 gramas). Pode parecer pouco, mas, considerando a alta do dólar no mundo, com quem o ouro possui correlação em geral negativa, não é desprezível.

Das demais capotadas tomadas no mercado financeiro nesta quarta, a que atingiu de maneira mais direta a bolsa brasileira foi a do minério de ferro, de 3,7% nos portos chineses.

Não chegou nem perto da queda do bitcoin. Afinal de contas, tem um lastro bastante palpável para ter subido 80% no ano passado e cerca de mais 35% neste ano. A base das taxas de crescimento violentas esperadas para as grandes economias, lideradas por China e Estados Unidos, é a infraestrutura. Que demandará, de fato, largas encomendas de commodities metálicas.


"Mas o movimento recente é muito exagerado", diz Flávio Conde, analista da Inversa, ao analisar a alta de 15% da matéria-prima concentrada apenas em maio. Em partes, justificável, como dito. Mas também com boas doses de efeito manada. "O mercado chinês é muito especulativo, há muita compra e venda por lá por investidores que não olham muito para os fundamentos, o que acaba trazendo exageros e flutuações muito fortes, para cima e para baixo".


Fazendo coro ao que diz Conde, vale recordar aqui do sobe e desce do minério nos últimos dias. Depois de voar para o recorde com fortes altas em sequência, derreteu na última sexta-feira nada menos que 12% num só dia.


  • Inevitavelmente, devolveram um pedacinho do suporte dado ao Ibovespa neste ano, impedindo que ele orbite no vermelho no acumulado, o grupão de 17% de composição representado por Vale e vendedoras de aço. Papéis da mineradora fecharam em queda de 2,05%. No time das siderúrgicas, puxou a fila da realização de lucros a ação da CSN, ao recuar 3,98%.

Essas ações, aliás, embora com prometida resiliência de longo prazo dada pelos gastos feitos pelos países mais ricos do mundo tentando deixar a crise para trás, Conde vislumbra solavancos de curto prazo. A depender do rumo tomado pelas curvas de juros americanas, que tornaram a se inclinar mais nesta quarta, investidores estrangeiros tendem a retirar dólares aportados na bolsa do Brasil por meio dessa ações. Afinal de contas, papéis com as da Vale já subiram em 12 meses incríveis 130%. E mesmo que sigam descontados em relação aos pares internacionais, têm mais gordura para queimar na hora de gestores internacionais reajustarem sua exposição ao Brasil.


Para o analista da Inversa, é a indiscutível haver uma bolha no mercado financeiro mundial, inflada pelo Fed e demais bancões centrais. Uma espécie de efeito colateral dos estímulos feitos para que a economia real não fosse ainda mais prejudicada pela pandemia. Essa bolha não vai estouraria de uma vez só, como no caso da crise global de 2008. "Justamente porque o Fed não vai deixar desta vez, sem nem pensar em subir juros antes de 2023", diz.

No entanto, para Conde, a bolha já começou a murchar, sendo desinflada, paulatinamente, em pregões como este.

E não mais fortemente porque, bem, os juros no mundo rastejam e não há muito para onde investidores correrem. Mas esse processo, diz o analista, pode ser, sim, intensificado pelo Fed pelos próximos meses. Não subindo juros, como dito, mas passando a retirar gradualmente as injeções bilionárias mensais de dólares feitas nos mercados, conforme sugerido em sua ata.


  • Conde entende que entre os principais salva-vidas para investidores no meio desse processo estão os bancões. Que entra ano, sai ano, prometem muito em seus balanços, sólidos, mas entregam pouco nos pregões. E que, por terem caído tanto no acumulado, não tendem a ser ainda mais penalizados por gestores de grandes fundos internacionais.

Ou seja, essas ações podem contrariar o papel habitual de porta de saída do Brasil. E, por apresentarem bons fundamentos e descontos, podem contar com contraintuitivo aumento da procura. Nesta quarta, foi assim, com alturas módicas de ganhos. O ponto fora da curva ficou por conta da alta de 3,35% de Santander Brasil.


Outro ativo que tem demonstrado alguma volatilidade excessiva é o petróleo. E que muito importa à vida do Ibovespa dada a fatia importante ocupada pela Petrobras, de 9%, em sua composição. Depois de atingir na primeira metade do pregão passado o maior nível de preços em Londres desde 2019, aos US$ 70 por barris, descia neste fechamento na casa dos 6%, à faixa de US$ 66.


Nesse caso, existe a dicotomia entre duas teses poderosas. À da retomada em curso nas grandes economias, puxando com força a demanda de combustíveis para cima. Mas também a eventual antecipação da alta de juros nos Estados Unidos, temida por mais que o Fed jure de pé juntos que nada mudou no seu plano de voo sobre juros. Além disso, ao contrário das vacinas de sobra nos Estados Unidos, um mercado imensos como o da Índia pode reduzir suas demanda, enquanto a covid-19 vai levando para cima sua curva de mortes e contágios.


  • As ações da Petrobras, no entanto, seguraram até que bem o tranco. O que ajuda a entender o efeito reduzido de baixa no Ibovespa. Papéis preferenciais (PN, concedem preferência por dividendos) cediam no fechamento 0,76%. Ordinários (ON, com direito a voto em assembleias), 0,31%. "A companhia já teve uma queda muito forte nesse ano desde a saída do Roberto Castello Branco. Então, tem menos para devolver do que a ação da Vale, por exemplo", diz Conde. Por sinal, a queda dos papéis ON da estatal, que chegaram a ser de 27%, já foi reduzida para 8,54%. Apenas em maio, subiram até aqui 10,48%.

E para ninguém dizer que não falamos das proverbiais flores, e terminar o texto iniciado com Ivan Lins fazendo referência à Geraldo Vandré, foi dia de a CPI da Covid receber o general da ativa Eduardo Pazuello.

A cena local segue concentrada pela política e dominando esforços palacianos, que poderiam ser empregados na aprovação de reformas, em se defender. Mas para Conde, eventos badalados da CPI como o desta quarta, em que foi ouvido o ex-ministro da Saúde, terão efeitos limitados no mercado. Trazendo seus ruídos apenas enquanto durarem os trabalhos. "Entendo que o ruído trazido pela CPI seja coisa de um mês e só", diz.


  • Quanto as reformas, diz, seguirão empacadas por outras razões. E, portanto, sem permitir ao Brasil se descolar por esses canais do mau humor global.


"Acho que a reforma tributaria não sai, não se pode perder a arrecadação neste momento, tem que tirar de um setor e cobrar do outro. E este governo não tem peito para ir contra lobbies. Na administrativa, já começou mal com eles querendo fazer o 'teto duplex', beneficiando o alto escalão do funcionalismo", diz. "O que me anima mesmo é a retomada da economia no segundo semestre, sinalizado pelos resultados deste primeiro trimestre das empresas listadas. Em geral é o período de números mais fracos, mas surpreenderam muito positivamente."


Publicado em: valorinveste.globo.com

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