A agonia do Antiquarius



O Antiquarius, o restaurante icônico que introduziu a alta gastronomia portuguesa no Brasil a partir de um imóvel discreto no Leblon, fechou as portas esta semana depois que uma crise crônica se tornou insustentável.

A empresa sustenta que o restaurante está fechado “por problemas técnicos e manutenção na cozinha” e que reabrirá no dia 6, mas fontes que conhecem bem a casa dizem que falta capital de giro. O Antiquarius já fechou temporariamente em outras ocasiões. Referência na alta gastronomia carioca no anos 80 e 90, o Antiquarius era o lugar onde presidentes e pop stars jantavam na Cidade então Maravilhosa. De Mick Jagger a Madonna, de Michael Schumacher ao rei da Espanha, quase todo VIP que vinha ao Rio jantou ou almoçou no Antiquarius pelo menos uma vez. Roberto Marinho tinha sua mesa. Mario Henrique Simonsen curtia seu whisky em outra. Roberto Carlos, na mesa do lado. A equipe do Antiquarius — os maîtres e garçons têm mais de 30 anos de casa — está conversando com os clientes antigos e com o dono do imóvel para achar uma solução, mas ninguém sabe ao certo o tamanho da dívida. De certa forma, o Antiquarios morreu com o Rio, onde uma aristocracia elegante foi gradualmente substituída por uma cultura de corrupção governamental cujo poster boy foi o ex-Governador Sergio Cabral, e que arruinou o Estado. O golpe de misericórdia foi a Lava Jato, que prendeu boa parte de seus frequentadores. O Antiquarius foi fundado por Carlos Perico, um imigrante português que veio para o Brasil em 1976 fugindo da Revolução do Cravos, que derrubou o ditador Salazar. Perico morreu há dois anos, sem ver o epílogo de sua criação. Perico e seu sócio, Antonio Pimenta, eram donos de uma pousada em Elvas, na região do Alentejo, que nos anos 70 já tinha uma estrela Michelin.

Antes do Antiquarius, a cozinha portuguesa no Brasil era algo rude, sem qualquer refinamento, e era comum o brasileiro comer bacalhau tomando whisky. (Os restaurantes existentes até então pertenciam a portugueses que emigraram para o Brasil nos anos 40 e 50, empobrecidos pela guerra e fugindo da depressão econômica.) Perico fazia parte de outro perfil de imigrante: portugueses ricos cujos ativos haviam sido estatizados após a queda do regime fascista. Especialista em antiguidades desde os 18 anos, Perico criou o Antiquarius com um refinamento inexistente até então e introduziu a figura do sommelier, estendendo à cozinha portuguesa um charme antes privativo da francesa. Sua política de RH era clara: “os funcionários bonitos vão para o salão; os feios, para a cozinha”.

Mas nem todo a erudição e refinamento de Perico puderam compensar a má gestão. A matriz no Leblon sempre foi uma 'cash cow’, o que encorajou Perico a abrir em São Paulo. A filial paulistana inicialmente foi bem, mas desandou depois da morte extemporânea da filha de Perico que tocava o negócio. Filiais na Barra da Tijuca e em Brasília também produziram mais dívidas do que resultados. Ainda assim, o Antiquarius fez escola. O restaurateur português Carlos Bettencourt começou no Antiquarius do Rio, de onde foi transferido para São Paulo para ser o principal maitre da loja da Alameda Lorena. Quando o sonho paulistano de Perico fez água, Bettencourt abriu A Bela Sintra, cuja comida é inspirada no Antiquarius. Outro filhote foi o Tejo, o restaurante brasiliense operado por Manoelzinho, eleito diversas vezes o melhor maitre do Rio quando trabalhava no Antiquarius. O Antiquarius era o único dos restaurantes finos que não tinha chef de cozinha: Perico nunca botou a mão numa panela, mas orientava sua equipe num processo de tentativa e erro no que ele chamava de ‘cozinha experimental’. Foi desta cozinha que saíram clássicos: o polvo na cataplana, o bacalhau nunca-chega (com batata palha, ovo e cebola), o bacalhau à lagarera e o inigualável arroz de pato — a assinatura da casa. A história mostra que quando um restaurante fecha as portas, é muito difícil reabri-las. Mas a história e o legado da marca Antiquarius fazem o Rio torcer por um milagre.

Publicado por: Brazil Journal

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