O Carlyle e uma fraude "made in USA"



Como um dos maiores fundos de investimento do mundo montou uma ciranda financeira e deixou à míngua clientes e credores

Everton Faustino prefere um único descendente, mas não está disposto a contrariar a mulher, Aline Marques, que insiste em dois. Ele tenta imaginar o sobrado no Parque Victória, um anunciado bairro popular na divisa entre Mogi das Cruzes e Suzano, Região Metropolitana de São Paulo. “Seria simples, três quartos, uma churrasqueira no quintal.”

O aposentado José André Cruz pretendia reunir a família e convenceu os filhos a adquirir terrenos ao lado do seu. Vernek Bonazzio e Leandro Moreira apostaram as economias em um investimento promissor. Cada um desembolsou de 60 mil a 130 mil reais antes de ver o sonho desmoronar.

No lugar de casas coloridas e crianças nas ruas, vacas e cavalos pastam avidamente em lotes vazios. Enquanto observam, desolados, o futuro entregue às moscas, alguns ficam na dúvida se continuam a pagar as mensalidades. Outros simplesmente desistiram. “Não quero mais saber disso aqui. Só peço o meu dinheiro de volta”, protesta Bonazzio.

O Parque Victória não é um caso isolado nem espelha a crise econômica brasileira. O abandono do loteamento resulta de uma fraude que em muitos aspectos lembra a tragédia da construtora Encol nos anos 1990 e envolve um dos maiores fundos de investimento do planeta, o norte-americano Carlyle, responsável por administrar 170 bilhões de dólares em ativos ao redor do mundo.

No Brasil, o Carlyle controla, entre outras, a loja de brinquedos Ri Happy e a rede de móveis Tok&Stok. Só no estado de São Paulo correm 832 ações contra a Urbplan, a incorporadora que deixou à míngua os compradores dos lotes em Mogi das Cruzes.

Em Caçapava, no Vale do Paraíba, o Ministério Público estadual impôs multa diária à empresa até a conclusão das obras de um condomínio fechado lançado mais ou menos na mesma época do Parque Victória.

O desastre começou como uma história de sucesso. Em 2007, no calor da expansão imobiliária no País, o Carlyle adquiriu 60% da Scopel, uma incorporadora familiar do interior paulista reconhecida pela solidez dos empreendimentos. Impulsionada pelo frenesi do mercado, a reputação da Scopel e a grife Carlyle, a empresa tornou-se mais agressiva.

Entre 2008 e 2012, lançou cerca de cem loteamentos, entre condomínios e bairros planejados, em 18 estados. Calcula-se que a companhia tenha captado 700 milhões de reais no mercado financeiro por meio de certificados de recebíveis imobiliários, um título de dívida lastreado nas vendas de terrenos.

Um novo lançamento imobiliário possibilitava a emissão de novos certificados que financiavam a compra de novas áreas... Uma ciranda financeira semelhante àquela que provocou a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos. A intenção do Carlyle, acreditam credores em litígio com a empresa, era montar uma carteira de 1 bilhão de reais, abrir o capital da Scopel na Bolsa de Valores e sair da operação.

Os planos foram atropelados pelas circunstâncias. Em 2013, a Scopel, famosa por entregar os projetos em até dois anos, começou a enfrentar dificuldades para honrar os compromissos com os clientes. Os atrasos nas obras e as consequentes disputas com os compradores de lotes afetaram o caixa e a empresa interrompeu o pagamento dos certificados em posse de investidores privados.

No fim do ano, diante do risco de insolvência e de uma enxurrada de ações na Justiça, o Carlyle adquiriu os 40% restantes da incorporadora nas mãos da família Scopel, demitiu a diretoria, mudou o nome da companhia para Urbplan e anunciou um aporte de 150 milhões de dólares para concluir os loteamentos e pagar os títulos da dívida.

A intervenção do fundo acalmou os credores e afastou os boatos de quebra. Mais tarde, em processos judiciais, os norte-americanos atribuiriam os percalços da empresa a divergências estratégicas com os antigos proprietários.

A calmaria duraria pouco. Em 2015, o fundo interrompeu os repasses à Urbplan e vários empreendimentos voltaram a ser paralisados, enquanto no mercado circulavam informações sobre um iminente pedido de recuperação judicial da empresa.

Ainda assim, o impasse se arrastaria até meados de 2016, quando credores da companhia foram oficialmente convocados para uma reunião em São Paulo no escritório do advogado Eduardo Munhoz, especializado em falências. No encontro, os investidores receberam a informação de que a Urbplan estava quebrada e se comprometia tão somente a concluir as obras em andamento.

Todos os demais compromissos precisariam ser renegociados. Naquela altura, a dívida financeira passava de 500 milhões de reais.

O que, na visão dos credores, transformou um negócio mal administrado em uma fraude foram as operações urdidas pela diretoria da Urbplan, sob anuência do fundo norte-americano, 12 meses antes da reunião no escritório de Munhoz.

A partir de maio de 2015, apesar de todos os sinais de fragilidade financeira, a incorporadora transferiu sistematicamente quase 600 milhões de reais em títulos para outro fundo de investimento, o Itapeva VIII, cujo único cotista era o próprio Carlyle.

Não bastasse, o comitê gestor do Itapeva era formado por André Mastrobuono, André Domingos e Raphael Filizola, respectivamente diretor-presidente, diretor-financeiro e conselheiro da Urbplan.

Uma operação apelidada no mercado financeiro de “zé-com-zé”, na qual o comprador e o vendedor são os mesmos. Antes, portanto, de reunir os investidores em meados do ano passado e anunciar a recuperação judicial, os administradores dilapidaram o caixa em proveito da controladora da companhia.

A manobra visava não só engordar as contas do Carlyle, mas dificultar o arresto de bens da Urbplan. Desde então, credores e clientes lesados encontram obstáculos para reaver seus investimentos.

Em outubro passado, o banco BBM, que cobra na Justiça 6,9 milhões de reais da incorporadora, obteve o direito de confiscar dinheiro das contas da empresa e encontrou míseros 355,80 reais. Donos de lotes se defrontam com situações parecidas.

Em meio à briga nos tribunais, os credores descobriram outra operação heterodoxa. Em março de 2016, a Urbplan transferiu para o Carlyle duas subsidiárias, a SP-82 e a SP-24 Empreendimentos Imobiliários, detentoras de terrenos avaliados em mais de 30 milhões de reais. Pelo controle de cada subsidiária, o fundo pagou 100 reais.

E, embora a empresa-mãe estivesse com os cofres vazios, o Carlyle preferiu investir 200 milhões na SP-82 e na SP-84 e criar duas novas concorrentes no mercado a cumprir a promessa anterior de recompor as finanças da Urbplan.

O golpe final ocorreria em outubro passado. Dez anos depois de adquirir o controle da Scopel, o Carlyle informou de forma sucinta e enigmática no balanço contábil trimestral a venda do negócio. Em comunicado à SEC, a comissão que fiscaliza o mercado de capitais nos Estados Unidos, o fundo reitera o anúncio sem revelar o nome do comprador.

“Durante o terceiro trimestre encerrado em 30 de setembro de 2017”, diz o texto, “(o Carlyle) dispôs de sua participação acionária na Urbplan em uma operação com uma terceira parte. Na operação, a terceira parte adquiriu o controle operacional e toda participação acionária na Urbplan.”

Cerca de um mês antes de anunciar nos Estados Unidos a venda da incorporadora brasileira, o Carlyle havia empossado na direção da empresa Nelson Bastos e Alberto Tepedino, sócios da Ivix, uma consultoria especializada em administrar empresas em processo falimentar. Bastos, em particular, tem uma longa, audaciosa e conturbada carreira.

O executivo assumiu cargos de direção na Varig, no Hopi Hari e na Parmalat. Obteve sucesso em algumas empreitadas, mas enfrentou problemas em outras. O caso mais notório envolveu a Agrenco, trading agrícola que foi à falência em 2013.


Tepedino e Bastos (acima), famosos administradores de massas falidas, foram contratados em setembro para gerir os espólios da Urbplan (Foto: Gilmar Felix/Câmara dos Deputados)

O executivo recebeu ameaças de morte e acabou acusado por partes contrariadas com sua atuação de se beneficiar do processo: em troca de uma porcentagem, Bastos teria autorizado a venda de ativos da companhia por valores abaixo dos preços estimados pelo mercado. A acusação rendeu uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários, arquivada por falta de provas.

Os sócios da Ivix responderam por escrito às perguntas de CartaCapital. A consultoria não revela os nomes dos novos controladores da Urbplan e prefere uma resposta evasiva: “A transação anunciada pelo Carlyle refere-se à venda de uma empresa de investimentos baseada no Canadá, que nada afetou a situação contratual da Ivix vis-à-vis à Urbplan.”

A empresa também nega atrasos generalizados nos empreendimentos imobiliários. Segundo a Ivix, somente 4 dos 83 projetos em curso “têm pendências de aprovação final, de natureza formal com prefeituras e autarquias”. Em ações judiciais, credores da incorporadora estimam cerca de 3 mil famílias afetadas em todo o País pela interrupção dos loteamentos.

A história, garante a consultoria, é outra: 3 mil proprietários de lotes estão inadimplentes a no mínimo 180 dias e as mais de 800 ações em tramitação na Justiça paulista devem-se em geral ao rompimento de contratos causado “pela dificuldade financeira dos clientes”. A inadimplência em alguns projetos superaria os 50%.

Por fim, a Ivix informa que “a nova gestão da Urbplan busca entendimento com os clientes e credores que financiaram a empresa” e diz apostar na melhora do cenário econômico.

A consultoria recusou-se ainda a comentar as transferências de patrimônio operadas pelos antigos administradores a serviço do Carlyle, “transações”, de acordo com a nota, “legalmente realizadas pela companhia durante a gestão anterior”.

O Carlyle evitou responder à maioria das perguntas enviadas por e-mail. Não revelou o nome dos novos controladores da Urbplan nem explicou as transferências de patrimônio que antecederam o anúncio da recuperação judicial.

O fundo limitou-se a rebater de maneira sucinta a suspeita de fraude levantada pelos credores: “Essas acusações são falsas, sem fundamento e imprudentes. Quaisquer alegações que sejam levadas em juízo serão contestadas e derrotadas em última instância”.

Sem esperanças de uma solução negociada, credores ingressaram no Ministério Público de São Paulo com pedido de instauração de uma ação civil pública. Pretendem, desta maneira, “impedir que o patrimônio da Urbplan, fraudulentamente desviado para veículos societários do Grupo Carlyle, seja dissipado ou liquidado”.

À margem do embate entre a Urbplan e os investidores, os proprietários de lotes no Parque Victória e em outros empreendimentos incompletos esperam ao menos recolher os cacos de um futuro despedaçado.

por Sergio Lirio — publicado 24/12/2017 00h24, última modificação 24/12/2017 07h57

Publicado em: Carta Capital

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